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Desempenho tarja preta

Apresentação

 

Não é tranquilizador o que este livro tem a dizer. Sem desconhecer todas as amarras que foram cortadas ou afrouxadas pelas revoltas libertárias dos anos 1960-70, esses movimentos, que já são históricos, parecem ter engendrado também um efeito paradoxal. De forma imprevista e ainda difícil de mapear, certas tiranias dos modos de vida propiciados pelas demandas do capital foram se reforçando nas últimas décadas. A dinâmica do mercado se intensificou enormemente, impondo a sua lógica com a generalização de um certo "espírito empresarial" que foi se infiltrando por toda parte, inclusive em territórios antes vedados a tais intrusões.

Nestas páginas, com uma sólida fundamentação teórica e muita sagacidade intelectual, Marianna Ferreira Jorge nos mostra até que ponto esse “novo espírito do capitalismo” se inseriu nas vidas dos sujeitos deste globalizado século XXI. A ferrenha competitividade que nos impele a otimizar todos os aspectos de nosso dia a dia, com uma exigência de produtividade total em um ritmo acelerado que nos impede de parar um segundo sequer, encontra uma de suas miragens mais eficazes nas fabulosas promessas da indústria farmacêutica.

Assim, quando as "falhas" na própria performance tornam-se evidentes por atrapalharem o bom funcionamento cotidiano, costuma aparecer o sonho da solução técnica para curar todos os tipos de mal-estares. O mercado se alia, então, a outros dois poderosos vetores da atualidade – a tecnociência e os meios de comunicação – para vender tanto as novas doenças como os remédios que se propõem a curá-las.

Dois fatores complementares impulsionam esses negócios altamente rentáveis: por um lado, o ideal de uma felicidade que é preciso ostentar de modo constante; por outro lado, a insatisfação garantida pelo requerimento de alto desempenho em todos os campos, ressaltando a autonomia individual nessa luta pela autossuperação e pela meta de vencer também a todos os demais.

Tanto a fina análise que a autora realiza desse fenômeno, como os impressionantes depoimentos dos consumidores de drogas lícitas aqui entrevistados, nos oferecem um quadro bastante inquietante do mundo em que vivemos. O livro convida os leitores a refletir sobre as possibilidades existenciais que se abrem ou se fecham para todos nós, numa época que parece oferecer opções ilimitadas para a realização pessoal, mas acaba gerando formas de sofrimento inéditas, sem perder a ocasião de vender também as supostas panaceias destinadas a aliviá-las.

Paula Sibilia